
A pulsação acelerou, o coração disparou, faltou o ar, o chão desapareceu sob seus pés. O amor nunca deixara de estar ali, como um lobo à espreita, esperando o momento certo para uivar. Como doía, como machucava vê-lo tão feliz, tão sem precisar dela, tão sem lembrar! O olhar de ambos se cruzou por um segundo, talvez menos.
Um mundo de lembranças coube naquele breve olhar, um mundo de palavras não ditas, de gritos não emitidos. Ela ainda o amava. Doía a constatação de que o amor era só dela, sem reciprocidade alguma, sem chance de frutificar. Quando os olhares se cruzaram ele não desviou o dele; ela sim. Para não ver o braço enlaçando a cintura da outra, para não ver o sorriso, a cumplicidade com a outra. Mas a outra era ela agora. E ele queria que ela soubesse, queria que ela visse, que ouvisse o som do riso dos dois. Ela ouviu, ela sentiu. E viu muito mais do que ele intencionava mostrar, viu o ar de triunfo, o ar de regozijo dele.
Ela nunca quis que fosse assim, jamais quis que ele soubesse da traição. Foi um erro, um momento que não valia um amor como o dela por ele. Mas ela errara, ele soube e jamais cogitou perdoar. Também por isso ela baixou os olhos diante dele, por saber que jogara fora o que era mais caro aos dois, a confiança, a lealdade. Por vergonha de haver jogado fora o amor valioso dele por ela.
Enquanto descia a rua ela pensava, e as lágrimas desciam quentes, abundantes, sufocantes. Chorava por si, chorava por ele, por tudo o que ele chorara. E chorava por tudo o que fora seu e agora pertencia à moça sorridente cuja cintura ele enlaçava. E descia a rua...













